Geral
Solly Segenreich apresenta livro na Bienal de São Paulo
Obra apresenta a história de um judeu no Norte do Brasil
O ciclo da borracha transformou a Amazônia em um dos maiores polos econômicos do mundo entre o final do século XIX e o início do século XX. A riqueza produzida pelo látex atraiu milhares de imigrantes em busca de uma nova vida, entre eles judeus que deixaram a Europa e o norte da África para reconstruir o futuro em terras brasileiras. É nesse cenário histórico, ainda pouco explorado pela literatura, que se desenvolve Quando as árvores sangraram: A saga de um Asquenazi na Amazônia, novo romance de Eliane Camolesi e Solly Segenreich, publicado pela Editora Labrador.
Resultado de uma extensa pesquisa sobre a imigração judaica e o ciclo da borracha, a obra também incorpora referências de memórias familiares e de experiências de vida deSolly Segenreich, imigrante judeu que nasceu na Romênia, morou em Israel e construiua vida no Brasil. Ao combinar fatos históricos e ficção, o romance recria uma época de intensas transformações econômicas e sociais, sem perder de vista os conflitos humanos que atravessam gerações.
Ariel Figueroa, editor do 60+ entrevista o autor, Solly Segenreich:
1ª. Como e quando aconteceu a migração de judeus para o Norte do Brasil?
Pelos relatos e entrevistas de jornalistas que acompanhei, essa imigração começou de meados para os fins do Sec. XIX. Boa parte da comunidade judia no Marrocos estava lá por causa da expulsão dos hebreus da Espanha (Sefarad) e depois de Portugal, perpetrada pela Inquisição Católica.A expulsão final foi em 1497, sob a ordem “ou se converte ou é expulso”. Este fato originou os chamados Cristãos-Novos. Aliás, muitas famílias brasileiras são descendentes destes cristãos novos.
2ª. Quando as Árvores Sangram, se refere ao látex ou também ao sangrar emocionalmente dos personagens?
O foco inicial foi o látex. Mas à medida em que escrevíamos o livro percebemos que, como quaisquer seres humanos, os personagens também sangravam, cada um com sua história.
3ª. Azquenaze, ou judeu europeu, esse personagem, é um retrato pessoal familiar?
Sim minha família é de judeus asquenazis. Papai vem da Bucovina (Grande Bessarabia) e mamãe vem de Isi, uma cidade universitária muito anti-semita.
Os judeus, ou hebreus, são, em geral, divididos em 3 grandes grupos, os Asquenazis, os Sfaradis (ou Sefaraditas) e outro composto pelos etíopes.
Vou me concentrar nos Asquenazis, oriundos da Europa Central e Oriental. O nome deve-se ao fato de que Asquenaz, era uma referência à grande Germânia da época. A minha família é asquenazi, tanto por pai como pela mãe. Um fato interessante é que a pele deste grupo é branca e os olhos, muitas vezes, são azulados o que contrasta com os hebreus antigos. Há pesquisas que demonstram que este grupo, originariamente da região do rio Volga, na atual Rússia, era um grupo sem uma efetiva religião. O rei da época, rei Kahzar, para não criar inimizade com o Cristianismo nem com o Islamismo, já que a região era uma rota comercial muito importante, adotou o Judaísmo convertendo seus súditos.
De certa forma, o livro traz pinceladas da História dos judeu para a minha história pessoal. Os judeus, depois da última e grande diáspora romana, adquiriram uma resiliência muito grande e passaram a valorizar muito o estudo, entendendo que dinheiro você pode perder e ganhar, mas o que está na sua cabeça te acompanha para qualquer lugar. Então meus pais me “adestraram” para sobreviver nas diferentes circunstâncias.Tenho alguns traumas psicológicos resultantes deste treinamento.
4ª. Como funciona a mente de um engenheiro aeronáutico, completamente matemático transitando no mundo das letras?
Esta é a pergunta mais difícil de responder. Desde criança tinha um enorme facinio por aviões. Em Israel, acompanhava meu pai com 7, 8 anos de idade até o areporto de Lydia (hoje Ben Gurion), para ele retirar as peças eletrônicas que vinham de um associado da França. Acho que ali começou minha paixão para adquirir a tridimensionalidade que os pássaros tinham. Os pilotos eram vistos com orgulho pela população, “ desafiavam a morte” e eu, tímido, teria uma porção de mulheres curiosas sobre a vida de um aviador e querendo socializar comigo.
A vida passou, me tornei engenheiro aeronáutico, fui professor, empresário, e busquei nas letras uma forma de eternizar minhas memórias para meus descendentes. Fico à vontade nesse mundo porque sempre gostei de estudar, ler, e dar vazão à escrita. Claro que ter a ajuda de uma profissional como a jornalista e escritora Eliane Camolesi, minha parceira na escrita do livro, torna tudo mais confortável.
5ª. 80 anos, longevidade ativa, quais os desafios e ensinamentos desta idade?
Outra pergunta muito difícil. Sabemos que iremos partir um dia. O bom é que não sabemos como nem quando. Tento manter a cabeça sempre ativa, desenvolvo projetos eletrônicos de caráter robótico. Se terão utilidade prática , não sei. Mas desafia a imaginação. Por fim, a vida me ensinou uma lição muito importante: procure não fazer mal aos outros. Se fizer um bem, já é lucro. O importante é não fazer o mal. E isso , acredito, me deu uma vida calma e prazerosa.














